SALVE O ALFAIATE VESPASIANO

 

Os filhos de Vespa e Deja: Waldir, Valdo, Valquíria, Vespasiano Filho, Wagner, Vanderley, Walter e Creusa

                     

Por: Walter Brito                

       Nosso saudoso pai Vespasiano Gualberto de Brito - homem simples, nascido em Flores de Goiás no Vale do Rio Paranã, era uma figura espetacular e marcou o seu tempo com letras garrafais. Nasceu no dia 25 de agosto de 1924 e faleceu no dia 10 de outubro de 2008,  aos 84 anos bem vividos.      

     Quando aprendeu a escrever o seu nome e conheceu o alfabeto, já tinha 14 anos e o fez com muita sabedoria, pois sua letra era desenhada com o talento do artista que ele foi na vida.    

Os saudosos Vespasiano e Dejanira

     Vale lembrar que Leonardo da Vinci nos deixou como legado uma frase incrível que retrata muito bem o esposo da merendeira e porteira do Grupo Escolar Americano do Brasil - dona Dejanira Carvalho de Brito - que nos deixou aos 93 anos - no dia 22 de junho de 2018. A referida frase é a seguinte - "A simplicidade é o mais alto grau de sofisticação". 

Na foto -  em pé: Valquíria, João (amigo da família) Creusa, Dejanira e Vespasiano. Agachados: Valdo, Vespasiano Filho, Vanderley, Waldir, Wagner e Walter

       Vespa aprendeu a escrever o seu nome quando era peão de boiadeiro ao lado do irmão Otílio, mais velho e mais experiente que o Neném (Vespa era o caçula e tinha esse apelido) - com o laço e o facão nas matas de Flores de Goiás -  onde nas horas vagas, embaixo dos pequizeiros e outras árvores da região, com a orientação de seus professores, se deram por alfabetizados! Vespasiano foi o nome de um importante imperador romano e muitas vezes em nossa tenra infância eu e meus sete irmãos lá na Casa Amarela do Grupo Escolar Americano do Brasil vez ou outra ouvíamos nosso pai dizer dentro de sua simplicidade de ex-peão de boiadeiro: "Vespasiano foi um grande imperador romano, e em Minas Gerais tem uma cidade progressista chamada Vespasiano". 

                       

Apesar da doença adiantada, Vespa não perdeu a elegância e a alma de alfaiate do primeiro time nacional
      

      Bem do seu jeito e com um charme especial - Vespasiano falava baixinho - era um excelente bailarino que fazia sucesso nas festas do Iate Clube de Formosa, ao lado de Dejanira, e também no seu tempo de solteiro nas gafieiras de Anápolis.                                

        Lá na capital econômica do Estado de Goiás à época, especializou-se na profissão de alfaiate e se tornou um personagem do primeiro time nacional durante os 57 anos vividos ao lado dona Deja, e só se separaram na morte.                            

       Vespa passou quatro anos em Brasília, onde foi oficial 01 do professor Davi, um dos mais caros alfaiates brasileiros no início dos anos 70. Em seguida Vespa trabalhou no badalado atelier de Geraldo Marques, que também foi alfaiate de diversos famosos e poderosos do Brasil e do exterior residentes na capital federal. Por dois anos o nosso querido pai foi contramestre do mais famoso alfaiate brasileiro, o estilista Linhares (parceiro profissional do estilista francês Pierre Cardin), que atendeu de Juscelino Kubitschek a Fernando Collor. Aliás, Linhares assinou e deu entrevista na Casa da Dinda, quando provava o terno com o qual, à época, um dos presidentes mais elegantes do mundo tomaria posse. A confecção do paletó daquele terno famoso foi feita pelo ex-peão de boiadeiro - Vespasiano Gualberto de Brito. Lá no Atelier do Linhares o ex-governador de Minas e na época senador e presidente do Banco Nacional Magalhães Pinto era frequentador assíduo. Ao terminar de subir os dois lances de escada na W3 Sul, Quadra 504, na porta do famoso atelier, o experiente homem do Congresso Nacional dizia para o próprio estilista Linhares: "Seu Linhares, eu quero provar o meu terno com o seu contramestre, o seu Vespasiano!"                     

       A idade foi chegando e Vespa não aguentava mais o batidão de ir na segunda-feira para Brasília e voltar na sexta para Formosa-GO, para ver a amada e os filhos.  

Deijanira e Vespasiano viveram por 57 anos junto - quando o alfaiate se despediu da vida em 10/10/2008

Então Vespa volta para a Rua Alfredo Nasser e monta novamente o seu atelier em Formosa. Entre os seus clientes na cidade em que nasceu sua esposa e filhos, lembro-me do Zé Coqueiro, Manoelzinho Carimelo; o fazendeiro João de Melo, Didi Hamú, Jofre Chaves, José Saad, o amigo e desportista Paulo Saad, os companheiros do joguinho de cartas: Zezé Guimarães, Zequita de Bebé, Baixinho e o irmão Abdias, o amigo e jurista de proa Nilson Curado, assim como o doutor Félix de Moura. Outros três amigos inseparáveis e também clientes: Gerson Rosa, Walter Saad e Jorginho Saad.  Lembrando ainda dos médicos: dr. Sebastião Resende, dr. Naby Gebrim,  dr. Amim, dr. Eduardo Pereira Primo e dr. Wagy Gebrim;  o ex-jogador do Botafogo, Tio Luiz; os ex-prefeitos Pedro Chaves, dr. Didi,  Itamar Barreto e o pai, Dedé; o prefeito de Formosa Quinca Magalhães e os filhos vereadores: João Balduíno e Mingão; o advogado Elvécio Opa e o irmão e professor Alcides Opa;  professor Edson Spíndola;  o engenheiro formado na Unicamp, funcionário de proa da UnB, ex-vereador de Formosa Júlio Araújo, que o  homenageou com o título de cidadão honorário de Formosa.    

Vespa entre os filhos: Valdo, Vanderley, Walter, Valquíria e Vespasiano Filho
  

     E também os ex-prefeitos de Flores de Goiás, Deusdezim, Santino Campelo e Mercedes Ribeiro de Miranda - todos foram clientes da Alfaiataria Veste Bem, cujo slogan era: "O homem faz a roupa e a roupa faz o homem".      

Vespasiano na casa da filha Valquíria e o genro Pantaleão - por ocasião do tratamento médico em Brasília
   

        Em tempo. As últimas peças de roupa que nosso pai confeccionou foram seis calças encomendadas pelo fazendeiro formosense Zé Neto.  Lá no atelier do mestre Vespa, que foi aluno do alfaiate Chiquinho do Espírito Santo, foi também um dos points da discussão política-econômica-cultural e desportiva de Formosa por mais de 50 anos.  Vespa foi cartola do Formosa Esporte Clube, ao lado do colega alfaiate e oficial de justiça Benoni (pai do famoso jurista brasiliense, doutor Mário Gilberto), do Fifico, Diogo do Banco do Brasil  (jogador e cartola),  Gerson Rosa, doutor Homero, seu Galete (cartola e jogador) todos sob o comando de Paulo Saad.                                       

        Eu e meus queridos irmãos: Creusa, Vanderlei, Wagner, Vespasiano Filho, Valquíria, Valdo e Waldir - contamos esta história para reverenciar o pai exemplar que tivemos, o ex-peão de boiadeiro, o alfaiate que ao lado de Dejanira são protagonistas de uma história que boa parte do Brasil conhece pelo livro "Vidas Negras Importam - Memórias de Uma Família Negra Brasileira". 

         Vespa soube ser com maestria um homem simples e extremamente sofisticado ao mesmo tempo. Ele passa para a história como o homem que ao lado da esposa criou de forma exemplar oito filhos - puxando a miudinha (agulha) com muita honra e sabedoria. Parabéns Vespasiano Gualberto de Brito!

Na foto - ocasião do lançamento da primeira edição do Livro: Memórias de Uma Família Negra Brasileira - ocorrido no Foyer do  Teatro em Brasília no dia 10/10/2006.  Em pé e da direita para a esquerda - Walter Brito e a mãe Deijanira. Na sequência e sentados  -  Vespasiano e os atores negros da TV Globo - Milton Gonçalves , Jorge Coutinho e Cosme dos Santos