ARTIGO | Bezerros mais pesados começam antes do nascimento

 *Edwann de Brito Gois

A pecuária de corte brasileira vive uma transformação silenciosa. A máxima de que “a fazenda que emprenha cedo desmama pesado” nunca fez tanto sentido quanto agora. Mais do que genética ou nutrição isoladamente, o que define o resultado final em quilos de bezerro desmamado é a integração entre reprodução, sanidade e manejo de precisão.

Com o avanço das biotecnologias, como a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e a Transferência de Embriões em Tempo Fixo (TETF), os produtores passaram a acelerar o ganho genético e elevar a produtividade dos rebanhos. No entanto, um ponto crítico ainda separa propriedades medianas das mais eficientes: o planejamento adequado da estação de nascimentos.

Em períodos chuvosos, a maior pressão de patógenos e a incidência de moscas podem elevar os desafios sanitários enfrentados pelos bezerros recém-nascidos. Diarreias neonatais, pneumonias, onfalites e miíases comprometem a saúde, o ganho de peso e, em casos mais severos, a sobrevivência dos animais.

A consequência é clara: menos quilos de bezerros desmamados, menor eficiência produtiva e impacto direto na rentabilidade da fazenda.

Por outro lado, propriedades que concentram nascimentos em épocas de menor desafio operam em um ambiente sanitário mais favorável, reduzindo riscos e criando melhores condições para o desenvolvimento dos animais desde o início da vida.

Se o nascimento é estratégico, a sanidade é determinante para a continuidade do processo. O manejo correto nas primeiras horas de vida define o futuro produtivo do animal.

Rondas sanitárias frequentes na maternidade, desinfecção adequada do umbigo, controle efetivo de miíases, intervenção precoce em casos de diarreia e pneumonia e programas vacinais bem estruturados formam uma base importante para prevenir perdas nessa fase.

A vacinação estratégica de vacas gestantes, definida de acordo com a orientação do médico-veterinário e os desafios sanitários de cada propriedade, contribui para a transferência de imunidade via colostro e para a proteção do bezerro nos primeiros dias de vida.

Além disso, a fase pré-desmama exige atenção redobrada com vacinação contra clostridioses e outras enfermidades, controle parasitário interno e externo e suplementação mineral e vitamínica. A integração entre protocolos reprodutivos, vacinação estratégica de matrizes e bezerros, controle de parasitas e suplementação ajuda a reduzir perdas e a criar condições para que os animais expressem melhor seu potencial desde os primeiros dias de vida.

O resultado depende da definição de um programa compatível com os desafios sanitários, o calendário reprodutivo e o sistema de produção de cada propriedade.

Na prática, isso se traduz em um único indicador que realmente importa: mais quilos de bezerro desmamado por vaca exposta ao ano.

A pecuária que lidera resultados hoje não é apenas mais intensiva — é mais inteligente. Ela entende que reprodução define o calendário, sanidade protege o investimento, nutrição sustenta o desempenho, tecnologia potencializa o resultado e, principalmente, que o sucesso começa antes mesmo do nascimento do bezerro.

Em um cenário de margens cada vez mais pressionadas, a pergunta que fica para o produtor é direta: a fazenda está apenas produzindo ou também está protegendo os ganhos construídos desde a gestação?

*Edwann de Brito Gois, coordenador de Território Pecuarista Tocantins

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