Levantamento do CIEE-RS revela que, ao mesmo tempo em que reconhecem o valor da qualificação, metade dos jovens não investe em formação digital. Psicóloga empresarial explica o que está por trás desse paradoxo
Crescer profissionalmente em até cinco anos, conquistar estabilidade financeira e encontrar um lugar no mercado de trabalho. Esses são os sonhos de uma geração que, ao mesmo tempo, carrega um peso silencioso: quase 90% dos jovens apresentam algum nível de ansiedade em relação ao futuro profissional. Os dados são de um levantamento divulgado pelo Centro de Integração Empresa-Escola do Rio Grande do Sul (CIEE-RS), realizado com 569 jovens aprendizes.
A pesquisa revela ainda um paradoxo significativo: 84% acreditam que o conhecimento adquirido impacta positivamente a carreira, mas 50% não fazem cursos ou treinamentos complementares voltados ao meio digital — justamente o campo que mais exige atualização constante. Além disso, 33% já utilizam Inteligência Artificial na rotina, sinalizando uma divisão dentro da própria geração entre quem já se adapta às novas exigências do mercado e quem ainda não deu esse passo.
Para a psicóloga empresarial Denise Milk, os números do levantamento revelam mais do que uma lacuna de qualificação, revelam o impacto direto da ansiedade sobre a capacidade de agir. "Quando o jovem sabe que precisa se qualificar, mas não consegue dar o primeiro passo, a ansiedade frequentemente está no centro disso. O excesso de informação, a sensação de que qualquer escolha pode ser a errada e a pressão por resultados rápidos criam um estado de paralisia que impede a ação, mesmo quando a pessoa reconhece o que precisa fazer.", alerta a psicóloga
A especialista destaca que esse fenômeno é especialmente intenso para quem está no início da vida profissional. "O jovem aprendiz está num momento de construção de identidade ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões que parecem definitivas. Esse acúmulo gera uma ansiedade real, que não é frescura nem fraqueza, é uma resposta do organismo a um ambiente de alta incerteza e exigência.", diz Denise.
Ansiedade e mercado de trabalho: uma relação cada vez mais próxima
A ansiedade em relação ao futuro profissional não é um fenômeno isolado. Ela se insere num contexto de transformações aceleradas no mercado de trabalho, com o avanço da Inteligência Artificial, a exigência de novas competências digitais e a instabilidade econômica que marca a trajetória dessa geração.
"O mercado de trabalho nunca exigiu tanto em tão pouco tempo. Os jovens de hoje precisam desenvolver competências técnicas e digitais, mas também habilidades socioemocionais como resiliência, adaptabilidade e inteligência emocional. Quando não há suporte para desenvolver essas habilidades, a ansiedade se instala e compromete tanto o desempenho quanto a saúde mental.", explica Denise Milk.
A psicóloga aponta que empresas e programas de aprendizagem têm um papel fundamental nesse processo. "Não basta oferecer uma vaga. É preciso oferecer um ambiente que acolha o jovem, que reconheça suas inseguranças e que invista no desenvolvimento integral, não só técnico, mas emocional. Jovens que se sentem apoiados produzem mais, permanecem mais e adoecem menos."
O caminho para uma carreira com saúde mental
Para Denise Milk, enfrentar a ansiedade sobre o futuro profissional começa com uma mudança de perspectiva. "A estabilidade financeira e o crescimento profissional que esses jovens desejam não vêm de uma decisão perfeita tomada agora. Vêm de pequenas escolhas consistentes ao longo do tempo. Reduzir a ansiedade passa por quebrar esse futuro em etapas menores e realizáveis, e por entender que qualificação é um processo contínuo, não um destino.", comenta Denise.
A especialista reforça que buscar apoio psicológico também faz parte desse caminho. "Cuidar da saúde mental não é um luxo para quem está começando a carreira, é uma estratégia. Um jovem que aprende a lidar com a ansiedade desde cedo tem mais capacidade de tomar decisões, de se adaptar a mudanças e de construir uma trajetória profissional sustentável.", conclui.



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