Delegada Doutora Jane defende prevenção e rede de apoio no enfrentamento à violência contra a mulher

Em entrevista ao Fala Capital, deputada distrital do Republicanos aborda relacionamentos abusivos, educação, acolhimento às vítimas, políticas públicas, Lei Maria da Penha e participação feminina na política


A deputada distrital Delegada Doutora Jane (Republicanos) afirmou que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa ir além da punição ao agressor e envolver prevenção, educação, rede de apoio e autonomia para as vítimas. Em entrevista ao programa Fala Capital, a parlamentar, que também é delegada da Polícia Civil, abordou os sinais de relacionamentos abusivos, falou sobre políticas públicas voltadas às mulheres e defendeu maior participação social na prevenção da violência.

Foto: Renato Oliveira.

Ao iniciar a entrevista, Jane agradeceu o convite e destacou a importância do debate.“Bruna, muito obrigada pelo convite. É um prazer poder falar para uma rede que é tão atuante, que é vista por tantas pessoas. Vai ser um debate muito importante, os temas são importantes para a gente comunicar com a galera.”

“Se doer, não é amor”
Um dos principais pontos da conversa foi a dificuldade de identificar quando comportamentos apresentados como cuidado ou proteção passam a representar controle dentro de um relacionamento. Segundo Jane, esse processo geralmente ocorre de maneira gradual.

“Isso não é fácil, não. Muitas mulheres sofrem violência, vivem nesse ciclo muitos e muitos anos, mas ela não consegue se enxergar nesse momento. Porque quando ele diz: ‘Olha, eu faço isso porque eu te amo. Eu te amo demais e eu perco a cabeça’. E, muitas vezes, ele vai além, ele diz assim: ‘Eu só faço isso com você porque você que me provoca’. A verdade é que o comportamento manipulador tem fases, ele é sutil, ele não é rápido, não começa manipulador.”

A deputada explicou que o controle pode inicialmente aparecer acompanhado de demonstrações de afeto. “Começa aquele relacionamento: ‘Eu amo demais e eu quero te proteger’. Então, eu quero te proteger e começa a fazer controle. Para a mulher diferenciar a proteção do controle é muito difícil, porque muitas vezes ele parece amar, porque ele diz isso, ‘eu te amo demais’, e dá demonstração de amor. Em algumas situações, ela fica absolutamente encantada, feliz, se sente cuidada e protegida.”

Segundo ela, o comportamento tende a se tornar mais explícito quando a mulher passa a resistir às imposições. “Isso vai enredando ela, porque na hora que ela se percebe ou quando ela não aceita esse controle, aí ele passa a ficar agressivo. Então tem que ter um olhar muito sutil. E, no relacionamento, isso não é possível.”

Jane também rejeitou a responsabilização da vítima por permanecer em uma relação abusiva. “A vítima nunca é culpada. A gente não pode, sob argumento nenhum, sob nenhum pretexto, devolver para ela a responsabilidade por esse controle machista e dizer que ela é desatenta ou que ela é boba, porque ela não sabe o que está acontecendo. Ela está envolvida. O emocional, quando envolve, perturba, confunde, porque não é o tempo todo controle. Uma hora é controle, uma hora é carinho, uma hora é lua de mel e outra hora vêm aquelas cobranças.”

Para exemplificar, a parlamentar mencionou situações enfrentadas ao longo da atuação policial. “Vamos falar daquele homem que se embriaga muito e, quando se embriaga, os freios morais se afrouxam, ele fica nervoso, fica violento, agride. Quando você vai atender na delegacia, ela fala assim: ‘Doutora, eu queria só que ele parasse de beber, porque ele só faz isso quando está bêbado. Quando ele não está bêbado, ele é bom, ele é carinhoso, ele é amoroso’. Então isso mostra a confusão, porque não é 100% agressão, 100% controle. São situações que se misturam e deixam a mulher absolutamente confusa.”

Na avaliação de Jane, o isolamento também aparece gradualmente. “Ele consegue entender a mulher e saber quais são as fragilidades dela, quais são os desejos. Então ele vai utilizando sutilmente e vai enredando. Uma hora é amor e aqui é controle. Chega uma hora que ela está absolutamente dominada. Aí não pode mais sair com amiga, não pode mais visitar a mãe, não pode mais vestir aquela roupa porque não fica bem.”

Ao diferenciar ciúme e violência, a deputada resumiu seu entendimento em uma frase: “Se doer, não é amor”. “Se doer, não é amor. Se doer, não é amor. Aquele comportamento que dói, que machuca, que te incomoda, que não te faz bem, isso não é amor. Porque o amor só se traduz por carinho, proteção, cuidado. Tem que te fazer bem.”

Ela acrescentou que humilhações e ataques à autoestima podem funcionar como mecanismos de controle. “Alguém diz que te ama e te humilha, faz você se sentir feia. A mulher agora, especialmente em 2026, a gente sabe que nós temos autonomia. Mulher profissional, ela está trabalhando, está crescendo. Nós sabemos que nós sempre fomos assim, os homens é que não perceberam. Mas agora ela está mais altiva, mais autônoma, tem mais vontade, faz mais o que quer e é como se eles perdessem o controle.”

“Quando ele perde esse controle dessa mulher, ele precisa fazer alguma coisa para trazer de volta. O que ele faz? Começa a fazer ela se sentir feia. Frases assim: ‘Se eu não te quiser, minha filha, ninguém mais te quer’. E isso ela vai aceitando porque é alguém da confiança dela, é alguém do relacionamento dela, é alguém que ela ama, então é alguém em quem ela acredita. Ele vai ali, devagarinho, destruindo a confiança, a autoestima, compara ela com outras mulheres, vai deixando a mulher insegura.”

Segundo a deputada, o controle sobre roupas, amizades e decisões pessoais pode preceder episódios mais graves. “Tem muita mulher que está arrumada com uma roupa e ele fala: ‘Nossa, a roupa não ficou bem em você, não. Ficou feia demais. Eu queria que você trocasse, amor. Vai lá, troca’. E aí ela vai lá e se troca para agradar. Muitas vezes esse comportamento vai criando uma situação que passa a ser violenta quando ela dá uma negativa.”

“Às vezes, para não sofrer uma retaliação agressiva ou que a humilhe na frente das pessoas, ela vai aceitando esses comportamentos e chega num tempo em que está completamente entregue a esse relacionamento que se tornou abusivo e ela sequer percebeu.”

Rede de apoio
Questionada sobre como uma mulher consegue deixar uma situação de violência, Jane respondeu que o apoio externo é decisivo.“Ela só consegue com muito apoio. Eu vou dizer uma frase que é muito pesada, mas é muito real. Eu tenho 26 anos na polícia, delegada há 16 anos. Muitas pessoas chegavam para mim e diziam: ‘Doutora, isso é uma sem-vergonha. Se tivesse um pouquinho mais de vergonha, ela tinha saído desse relacionamento’. Ou então falam: ‘Está apanhando pouco’. Porque tem mulher que é agredida mesmo, apanha, e falam: ‘Se apanhasse mais, ela sairia dessa situação’.”

Jane contestou esse tipo de reação. “Eu insisto sempre: a mulher nem é sem-vergonha, nem está apanhando pouco. Na verdade, ela tem pouco apoio da rede dela. E quem é a rede de apoio? Familiares, amigos, colegas, filhos. Às vezes ela é uma mulher mais adulta, já tem filhos maiores, e não sente a proteção desse grupo de apoio.”

Ela afirmou ainda que a distância entre a vítima e os serviços públicos pode dificultar a ruptura. “Às vezes o Estado está muito distante dessa mulher, apesar de nós termos em Brasília uma rede de proteção muito robusta, muito pronta, e o Estado ainda não conseguiu alcançar essa mulher. Então ela olha para o universo e se sente só, se sente envergonhada. A vítima não tem culpa de nada. Ela não precisa se envergonhar de ser vítima.”

Jane contou que, mesmo convivendo diariamente com o tema, conhece mulheres em situação de violência. “Eu sou militante no sentido de alguém que luta todos os dias, que tudo que produz é para falar de violência, para deixar as mulheres acreditadas, para ela ficar confortável. E eu tenho vítimas do meu convívio que sofrem violência doméstica e a gente está tentando trabalhar para ajudá-las.”

“As histórias são absolutamente repetidas, é muito igual o comportamento. E aí não importa se é branca, se é preta, se é rica, se é pobre, se é advogada, se é juíza, se é doméstica. Não importa.”

A deputada lembrou o caso de uma policial civil que trabalhava no atendimento a mulheres e, segundo seu relato, foi vítima de violência doméstica. “Quando eu falo desse assunto, eu gosto de dar exemplo de uma colega chamada Valdéria. Era uma policial civil, trabalhava numa delegacia de atendimento à mulher. Ela cuidava de mulheres vítimas de violência e foi morta, vítima de violência doméstica, pelo próprio companheiro. Então, absolutamente ninguém escapa.”

Jane também destacou a necessidade de acolhimento quando a vítima decide contar o que vive. “Nós precisamos que essa vítima se sinta confortável quando estiver sofrendo violência. Ela precisa dizer sem que a gente retorne para ela a responsabilidade pela violência que sofreu.”

“Quando ela conta da violência, primeiro vão desacreditar, dizer assim: ‘Nossa, mas fulano? É sério? Cara tão bom, provedor, pai, gente boa, tão honesto, não acredito’. Ele pode ser gente boa com todo mundo, mas ser o agressor com a mulher. Então o peso da palavra da mulher tem que ser alto.”

Educação dos meninos e aceitação da frustração
Ao falar sobre prevenção desde a infância, Jane direcionou uma mensagem às mães. “Mães, nós temos — e eu sou mãe, sou avó — uma responsabilidade muito grande. Você precisa ensinar seu filho a aceitar frustração.”

A deputada relacionou a violência a padrões sociais atribuídos a homens e mulheres. “Nós construímos um desenho social em que o homem pode tudo. Pode ter uma, pode ter duas. É até bonito, né? Duas mulheres, três, o povo se diverte: é o garanhão. Agora vá uma mulher ensaiar dois relacionamentos, ela recebe todos os xingamentos do mundo.”

“Por que o homem não recebe esse mesmo xingamento? Porque a gente vai construindo socialmente que o homem tudo pode e a mulher tem uma caixinha, ela só cabe naquela caixinha. Quando sai da caixinha, passa a ser xingada, humilhada, desacreditada.”

Na avaliação da parlamentar, meninos precisam aprender a lidar com recusas. “O homem precisa começar a aceitar frustração. Quando a mulher diz não para ele, ele não é menos homem. Não é porque ele é feio ou porque ele não presta, é porque ela não quer ele. Relacionamento precisa ser uma coisa natural, tem que fluir, tem que ter o desejo.”

Jane disse ainda que comportamentos de controle já podem aparecer durante a adolescência. “Os nossos jovens adolescentes vão ensaiando. Os jovens ensaiam, sabe como? Toma o celular da menina, quebra o celular, olha mensagens, vê o que ela está escrevendo, com quem fala, começa a proibir: ‘Você não pode ser amiga de fulano porque fulano não presta’.”

“A mulher acaba, para não perder o relacionamento ou para não azedar aquela relação, aceitando. É uma concessão, outra, duas, três, até que ela perdeu completamente a vontade.”

A deputada reforçou que a vítima não deve ser responsabilizada mesmo quando rompe e retorna à relação. “Mesmo quando ela está subjugada nesse relacionamento, nós não podemos acusá-la, porque o envolvimento emocional é uma dessas prisões, dessas amarras que fazem com que ela fique confusa e não consiga diferenciar os comportamentos, entender o que está acontecendo com ela.”
Por que a vítima volta

Jane também abordou a incompreensão de familiares diante das idas e vindas de mulheres em relacionamentos violentos. “A mulher que provê o próprio sustento, que tem a casa — muitas são provedoras — ainda assim volta no relacionamento. Aí tem amor, sentimento, é aquela história que eu falei: nunca é ruim 100%.”

“Ela pensa: ‘Nossa, foi tão bom no começo’. Ele fala: ‘Olha, eu não faço mais. Juro, prometo, só foi dessa vez. Estava de cabeça quente. Vamos tentar novamente’. Mas, como ela tem um sentimento, aceita, tenta de novo. É essa confusão de sentimento.”

Segundo Jane, para quem está fora da relação é mais fácil identificar os problemas. “Quando não tem sentimento, que é a situação da família, de quem está fora, fala: ‘Tu não está vendo que esse cara não presta? Não está vendo que está te traindo, que está mentindo para você? Larga’. É mais fácil. Mas, quando envolve sentimento, é mais difícil.”

Para ela, o acolhimento deve priorizar o fortalecimento da vítima. “Nessa hora, o acolhimento é dizer: ‘Eu estou com você. Você é importante. Você não precisa disso. Você é uma mulher bonita, você tem possibilidades, você é profissional. Quem te respeita e quem te ama te respeita, cuida de você’.”

“É convencê-la de que ela pode, porque algumas acreditam que, se não tiverem aquele relacionamento, não vão ter outro. Se ela tiver filhos, ele já disse para ela muitas vezes que ninguém pode cuidar dos filhos dele, ninguém pode tocar, ela vai ter que ficar sozinha para cuidar dos filhos.”

O ciclo da violência
Ao comentar a expectativa de que o agressor possa mudar e de que a relação volte a ser como no início, Jane falou sobre o ciclo da violência. “Existe um ciclo da violência. O ciclo começa com a lua de mel, quando está tudo bom, aquele jantar, aquela viagem, aquele presente ou simplesmente ‘me perdoa’, aquela noite de amor, tudo maravilhoso.”

“Daqui a pouco, o que fez ele ficar irritado outra vez vai acontecer de novo. Ele vai abrindo as asinhas, vai mostrando de novo, porque é a posse, é o sentimento, é o ciúme dela, porque ela é linda, porque ela é bonita, porque ela se arruma.”

Segundo a parlamentar, situações corriqueiras podem ser transformadas pelo agressor em justificativas para o controle. “Ele acha que ela está se arrumando não para ele ou não para ela própria, está se arrumando para outro homem. Quantas vezes eu ouço isso nos depoimentos de delegacia. Ele acredita que ela está se arrumando ou vai trabalhar para se envolver com os colegas de trabalho.”

“Às vezes ela quer se arrumar para ela mesma, quer se olhar e falar: ‘Cara, estou linda’.”
Autonomia financeira e papel do Estado

Para Jane, a dependência financeira é um dos fatores que podem dificultar a saída de uma relação violenta. “Imagine uma mulher que mora na casa do companheiro, que tem filhos e não tem uma creche para deixar os filhos para trabalhar, ou não tem uma formação, e o mercado de trabalho não está fácil. Como é que ela impõe a vontade dela se ela não tem uma rede de apoio?”

Ela defendeu políticas que deem condições materiais para a vítima reconstruir a vida. “Nós precisamos de um Estado forte que diga: ‘Se você não ficar nesse relacionamento, eu vou te dar, por exemplo, um aluguel social para você sair daí e rapidamente poder suprir essa deficiência financeira que era ele que supria. Vou te arrumar uma formação. Onde você parou de estudar? Vou te dar uma creche para os seus filhos. Durante a formação, vou te dar uma ajuda de custo para você não desistir’.”

“Aí você está criando condições para a efetiva autonomia, porque o que prendia ela naquela situação era a questão financeira. Você supriu aquela deficiência, aí ela vai sair.”

Informação ainda não chega a todas as vítimas
Jane reconheceu dificuldades para fazer políticas públicas chegarem ao conhecimento das mulheres que precisam delas. “Essa comunicação é muito difícil. É mais fácil pegar um celular que tenha lá uma morte, um atropelamento, um acidente, e chamar a atenção das pessoas do que uma política pública que fala: ‘Aluguel social’. O povo nem olha, passa por cima, vai embora.”

“Tem uma rede de proteção estabelecida, pronta, mas muitas mulheres não podem sair de casa. Tem mulher que, quando vai à delegacia, ele fala: ‘Se tu for à delegacia, fica pior’. Ela não tem como sair para buscar a rede de proteção.”

Segundo a parlamentar, algumas vítimas têm a rotina monitorada pelo próprio agressor. “Ela não conhece a rede porque sai de casa pouco ou, quando sai, tem que sair correndo, dizendo para onde vai, vai ao mercado e tem que voltar correndo. Ela não tem esse tempo livre de ficar pesquisando.”

“Então a comunicação do Estado para essa política pública eu acho que é deficiente. Tinha que estar nas propagandas, muito estampada, em outdoor, na TV.”

Para Jane, conhecer os primeiros sinais e saber que existe uma rede disponível pode facilitar a busca por ajuda. “Nos pequenos sinais de violação, você já tem que identificar desde o início: ‘O início da violação foi aqui. Pode se agravar? Pode. Você tem ciência de que pode se agravar? Tenho. Você tem ciência de que existem políticas públicas que podem te ajudar? Tenho. Então eu vou atrás das políticas públicas, vou atrás de cuidar disso, nem que seja em silêncio’.”

Prevenção e o programa Educa por Elas
Jane afirmou que a resposta à violência doméstica não deve se limitar à repressão depois do crime. “Como é que a gente resolve a questão da violência doméstica? Não se resolve violência doméstica tratando só o resultado, que é uma polícia eficiente para alcançar o autor. Quando acontecer, já foi. A mulher já morreu, não tem mais jeito.”

“Quando eu entrei para o Parlamento, com experiência de professora, 26 anos como policial civil, 16 como delegada lidando com violência doméstica todos os dias, eu falei: eu preciso propor uma política que eu acredito que tem que cercar a questão da violência. A gente tem que trabalhar o final, sim, o resultado, mas precisa evitar que a violência chegue.”

A parlamentar citou o programa Educa por Elas, de sua autoria, que foi instituído pela Lei distrital nº 7.460/2024 e prevê conteúdos de prevenção à violência contra a mulher nas escolas públicas e privadas de educação básica do DF. “A ideia é levar para a sala de aula, e aí tem que ser desde a mais tenra idade, pequenininho, de forma lúdica, do jeito que ele entenda. O menininho tem que respeitar a menina, tem que entender que ela tem direito, que ela pode gostar dele ou não.”

“Tem que falar de violência doméstica para adolescente, mas falar muito, porque o início dos relacionamentos são ensaios para a vida adulta. Ele faz um comportamento quando é adolescente e, na vida adulta, repete do mesmo jeito, mas do modo adulto.”

Para Jane, a educação pode naturalizar relações baseadas em respeito. “Quando você ensina, isso é introjetado no jovem, na jovem: o respeito a si própria, o respeito ao outro. Isso vai mudar comportamentos para que se torne natural. O respeito precisa ser natural. Então você tem que ensinar desde pequeno.”

Ela também mencionou o projeto Curta Maria como exemplo de trabalho pedagógico. “Tem um projeto no DF que chama Curta Maria. Quem criou foi Maria José. Ela ia para as escolas de ensino médio, para adolescentes, e durante um período eles tinham ali o conteúdo da Lei Maria da Penha.”

“Eles iam em grupos produzir vídeos de celular. No final, ela fazia um júri só de vítimas de violência doméstica, de mulheres, e eles apresentavam esses vídeos num telão. É muito emocionante você ver como eles já percebem, como eles sabem, como capturam aquele sentimento e traduzem da forma adolescente.”

“Eu inclusive gravo vários desses vídeos, carrego comigo quando faço palestra e mostro vídeos dessas jornadas do Curta Maria. Dessa forma você consegue levar para dentro da sala de aula a educação não violenta.”

Comitês de Proteção à Mulher
A deputada também falou sobre os Comitês de Proteção à Mulher. A CLDF registra projeto de autoria de Jane autorizando a criação desses espaços voltados à execução de políticas de proteção e promoção dos direitos das mulheres.

Jane disse que a proposta nasceu de uma lacuna percebida durante sua experiência como delegada. “As mulheres fazem boletim de ocorrência e muitas ficam completamente desnorteadas. ‘Vou fazer o quê da vida? Vou para onde? Vou morar onde? Faço o quê agora? E meu processo?’”

“Tem muitas mulheres que recebem a medida protetiva e não fazem acompanhamento processual. Muitas vezes ela não sabe, fica ali com o papelzinho guardado, jurando que está protegida, e a protetiva nem está valendo mais.”

Segundo Jane, os comitês foram pensados como pontos territoriais de acolhimento e orientação. “A ideia era um comitê, esse espaço qualificado, situado no território, com mulheres que são treinadas, que fazem esse treinamento constante para usar o termo certo, acompanhar essa mulher, fazer acompanhamento processual, oferecer atendimento psicológico.”

“São mulheres que ficam absolutamente vulneradas, sequeladas por conta da violência. O emocional fica muito abalado, então precisa de tratamento, acompanhamento psicológico.”

A deputada acrescentou que o acompanhamento jurídico também seria uma das necessidades. “A gente sabe que o acesso à Justiça hoje é muito difícil para muitas pessoas. Eu tenho uma verdadeira paixão pelo trabalho da Defensoria, mas nem sempre ela está ali a tempo e à hora que a mulher precisa. Muitas não podem pagar um advogado.”

“Então esse comitê é esse local de acolhimento que vai guiando ela na rede de proteção para dizer: ‘Você tem uma rede de proteção robusta. Você pode fazer um curso de formação que vai te ajudar, que vai te trazer renda’.”

“Esses comitês fazem roda de conversa, vão à casa da mulher, fazem busca ativa para saber como ela está. ‘Fez a ocorrência? Você está bem? Está precisando de apoio? Está precisando de ajuda?’ É um acompanhamento mais humanitário, dar esse abraço para ela não se sentir nunca sozinha.”

Jane afirmou na entrevista que sete comitês estavam em funcionamento e atribuiu a eles mais de 4,5 mil atendimentos. “Hoje nós temos depoimentos absolutamente incríveis de mulheres que foram resgatadas. Algumas esbarraram no folheto do comitê ou no próprio comitê e, a partir daí, conseguiram sentir: ‘Não estou sozinha’, e sair da situação de violência.”

“Foi a lei de minha autoria, minha primeira lei aprovada no ano de 2023. Hoje nós já temos sete comitês e já foram mais de 4.500 mulheres atendidas ao longo desse tempo. Eu digo 4.500 mulheres que foram salvas, que são resgatadas, acompanhadas e alcançadas. Poderiam ser estatística.”

Viva Flor e atendimento policial
Jane também mencionou o programa Viva Flor e defendeu que o atendimento estatal seja acolhedor desde o primeiro contato com a vítima. “A gente tem hoje uma experiência do DF, que o Viva Flor é um equipamento. Quando a mulher faz boletim de ocorrência, ele vai com a tornozeleira e ela recebe um equipamento que permite fazer esse acompanhamento, esse monitoramento, se ele se aproxima ou não.”

“Ela tem um equipamento para acionar a polícia quando precisa e existe uma tela de monitoramento na polícia que pega os dois sinais, do agressor e o dela. Quando se aproxima, eles avisam a ela que ele está se aproximando.”

Na entrevista, a deputada afirmou: “Nenhuma mulher que recebeu Viva Flor foi morta. Olha como uma política pública resolve. Mas a gente precisa fazer com que essa mulher saia de casa e vá fazer a denúncia.”

Ao falar da polícia, Jane disse que ainda há necessidade de capacitação. “Ela não pode chegar numa delegacia — e olha que eu sou policial, tenho verdadeira paixão pela polícia —, mas a nossa polícia precisa se preparar mais. E não só a nossa Polícia do DF, é a polícia de uma maneira geral.”

“Eu digo que a porta do poder público mais próxima das pessoas é a porta da delegacia. Então elas vão chegar lá.”

Jane exemplificou como uma abordagem inadequada pode desencorajar a vítima. “Se ela chegar na delegacia, foi agredida por um homem, e desavisadamente é atendida por um homem, se ele perguntar: ‘E aí, senhora, você veio aqui prender o pai dos seus filhos? Está sabendo que ele vai ser preso? Se ele for preso, quem vai sustentar a senhora?’”

“Isso acontece muitas vezes, às vezes desavisado, sem treino. Ele acredita que está alertando ela da realidade. Às vezes até o próprio servidor é machista. Mas essa não é a fala.”

Para ela, a abordagem deve ser oposta. “A fala tem que ser acolhimento: ‘Que bom que a senhora veio aqui, que a senhora tomou a decisão. A senhora vai ter acompanhamento. Tem um comitê que acolhe a senhora. A senhora pode voltar aqui quantas vezes quiser. Se ele se aproximar, a senhora vai ligar para a gente’. Palavra de fortalecimento.”

Mulher Segura DF e “Conheça Seu Par”
Outro ponto abordado foi a consulta a antecedentes de pessoas com quem uma mulher pretende se relacionar. Jane citou o aplicativo Mulher Segura DF e a ferramenta “Conheça Seu Par”. “Hoje tem um aplicativo que se chama Mulher Segura DF. Você baixa na sua lojinha de aplicativos. Eu costumo dizer: igual Uber, igual iFood, para as pessoas entenderem. Vai lá na sua lojinha, escreve Mulher Segura DF, baixa o aplicativo, no Android ou no iOS, e com isso você tem essa rede de proteção na palma da sua mão.”

Segundo a deputada, a ferramenta reúne acessos a consultas públicas. “Um dos ícones na barra de tarefas está lá: Conheça Seu Par. Você aceita os termos, aparece a consulta pública, consulta na Polícia Civil do DF, antecedentes criminais, a consulta do TJ. Então você coloca o nome dele completo e vão vir esses dados criminais.”

Jane ressaltou que a consulta não elimina o risco de violência, mas pode oferecer informação antes do aprofundamento de um relacionamento. “Isso vai evitar que ela seja vítima de feminicídio, agredida? Não. Mas permite a ela, antes de entrar no relacionamento, antes que haja envolvimento, antes que esteja apaixonada e não consiga se desvencilhar, antes que tenha filhos, saber: ‘Ele é um agressor de mulheres, tem uma, duas, três, quatro Maria da Penha contra mulheres diferentes’.”

“Ela vai poder pensar: se ele já agrediu outras mulheres, por que eu não vou ser a próxima vítima? Então ela consegue se desvencilhar antes de começar. A ideia é oferecer essa segurança.”

Jane brincou ainda com o nome da ferramenta. “Por isso o nome Conheça Seu Par. Não é Tinder. Parece que você está procurando alguém. Não. Você já encontrou seu alguém e quer saber se ele agride ou não. Então vai lá e faz a pesquisa criminal.”

Restrições a agressores
Questionada sobre condenados por violência contra a mulher no serviço público, Jane defendeu restrições. “A ideia da lei é exatamente essa: se for agressor, que o Estado consulte. Se for agressor de mulheres, não vai assumir cargo público.”

Segundo a deputada, a intenção seria aumentar as consequências sociais do comportamento violento. “Você tem que ter alguma coisa que faça ter medo, temer. Então ele fala: ‘Nossa, se eu agredir, eu não vou poder nem arrumar um emprego depois’. Isso é encurtar o espaço do agressor.”

“Meu sonho é que o Estado não admita em concurso público. Fez concurso público, pesquisou, agressor de mulheres, não assume. A iniciativa privada começa a fazer pesquisa também.”

Na visão da parlamentar, a reprovação social também precisa ser ampliada. “Enquanto o homem agressor estiver confortável, porque hoje é confortável ser agressor, ele agride a mulher e a sociedade desculpa dizendo: ‘Mas ele só bate na mulher. No futebol ele é maravilhoso, é o nosso zagueiro, nosso campeão, mas ele só bate na mulher’. Time de futebol devia não aceitar.”

Ela citou uma mensagem usada em campanha da área de segurança pública. “Tem uma camiseta da Secretaria de Segurança Pública que eu amo: ‘Não tenho amigo covarde’. É dizer assim: ‘Se você é agressor de mulheres, você é um covarde. Não sou seu amigo’.”

“Essas condutas somadas vão encurtando esse espaço do agressor, vão tirando esse conforto dele de ser agressor. ‘Sou agressor, não arrumo emprego. Sou agressor, não tenho amigo. Sou agressor, ninguém me convida para o churrasco’. É bom parar de agredir.”

Jane também defendeu que a sociedade denuncie situações de violência. “São vários flancos. É oferecer uma boa rede de proteção, é a família acreditar na vítima, não desestimular, é um serviço público que, na hora que recebe a mulher, acolha e oriente bem. E é a sociedade começar a ficar de olho, fazer denúncia.”

“A denúncia não precisa ser identificada, pode ser anônima. ‘Ah, eu tenho medo de me meter’. Mas você não precisa se meter. Você faz denúncia. Não deu nome. Ninguém vai te cobrar nome.”

Perseguição e violência digital
A parlamentar também falou sobre perseguição insistente e exposição de mulheres na internet. “Se ele insiste nas ligações, manda muita mensagem, persegue no trabalho, stalking, pode ir fazer um boletim de ocorrência, porque isso também é violência.”

“Há que se entender que é uma das formas de praticar a violência contra a mulher, porque nem sempre a violência é só essa que bate, só essa que chuta. Tem diversos tipos de violência.”

Sobre imagens íntimas, Jane alertou para a possibilidade de chantagem e exposição. “Às vezes ele se relaciona e depois tem fotos íntimas. Eu, quando tenho oportunidade, falo: ‘Mulheres, não façam fotos íntimas. Você não tem certeza do relacionamento, não faz’. Porque às vezes ele se apropria daquilo e passa a chantagear a mulher com aquelas fotos.”

A deputada relatou ter atendido uma ocorrência envolvendo compartilhamento de imagem íntima com um novo companheiro da vítima. “Eu já tive uma ocorrência assim. Ela entrou em um novo relacionamento, ele pegou uma foto íntima dela que tinha antes e encaminhou para o próximo namorado dela, expondo.”

Para Jane, não é possível saber no início de uma relação se a pessoa apresentará comportamento violento. “Ninguém tem bola de cristal, não tem como adivinhar. Nunca começa com agressividade, nunca começa com aqueles comportamentos que já vão indicar que ele é um agressor. Sempre começa tudo bem. É no beijo, no abraço.”
Lei Maria da Penha

Jane avaliou positivamente a legislação brasileira de combate à violência doméstica, mas afirmou que ainda há diferenças na aplicação entre os estados. “A nossa lei é uma das melhores do mundo, rivaliza com a chilena, com a espanhola, na completude. Ela vai fechando todas as brechas e continuamente vem sendo aperfeiçoada. São 20 anos de uma lei muito boa.”

“Agora existe uma grande diferença da lei que é muito boa para alcançar a mulher, essa lei sair do papel.”

Segundo a parlamentar, o Distrito Federal possui uma estrutura de atendimento mais ampla do que algumas regiões brasileiras, mas ainda seria necessário reduzir desigualdades. “Eu acredito que aqui nós temos uma boa estrutura, Casa da Mulher Brasileira, casas de apoio, comitês, uma rede robusta. Mas nós temos, infelizmente, no Brasil, estados ainda muito incipientes nesse atendimento, nesse acolhimento.”

“Eu acho que uma política nacional de enfrentamento à violência é muito necessária para dar uma equilibrada em todo o país.”

Ano eleitoral e avaliação de candidaturas
Na parte política da entrevista, Jane foi questionada sobre como o eleitor pode diferenciar uma política pública de uma proposta formulada apenas para gerar exposição em período eleitoral. “Acho que é importante ele olhar o histórico, quem é que propôs, quem é que está oferecendo. Porque hoje, de verdade, o GPT está aí para isso, né? O povo cria frases maravilhosas, diz o que as pessoas querem ouvir, mas, quando você vai buscar quem é essa pessoa que está propondo isso, tem experiência zero, nunca passou por nenhuma situação.”

Segundo ela, o histórico profissional e público de quem apresenta uma proposta deve ser considerado pelo eleitor. “Acho que as vivências de quem se apresenta são muito importantes. Vivência fala mais do que palavras. Hoje a rede social é muito aberta, todo mundo consegue pesquisar todo mundo. Então acho que é olhar para trás, olhar um pouquinho para o histórico: quem é você? O que você propõe? O que você já fez na vida?”

Jane associou esse entendimento à própria trajetória. “Eu vim para o Parlamento tendo passado dez anos na saúde, 11 na educação, 26 anos na Polícia Civil, fui secretária de Estado de política para adolescente e juventude, passei pela Fundação de Apoio à Pesquisa e lidei com ciência, tecnologia e inovação.”

“Quando eu venho para o mandato, eu digo que atuo em todas as áreas, mas me especializei. Os recortes do meu mandato são as áreas em que eu já tive atuação para não ser leviana, para não propor nada superficial. Para falar: ‘Eu proponho, mas eu sei o que estou falando. Eu já vivi, eu já atuei, fui gestora pública, então eu conheço a política pública que estou propondo aperfeiçoar’.”

Prioridade no mandato
Ao avaliar o mandato, Jane afirmou que considera a prevenção à violência contra a mulher sua principal área de atuação. “Quando eu olho para trás, falo: ‘Nossa, a gente entregou muita coisa’. Eu falo de educação, saúde, segurança pública, sou especialista em segurança pública, mas o meu foco, mais da metade do meu mandato, é não violência.”

“Enquanto nós tivermos uma mulher a menos, eu digo que ainda não entreguei tudo. Então preciso entregar mais. Tenho me esforçado, tenho trabalhado, mas nós ainda não alcançamos todas as mulheres.”

Ao falar sobre os próximos anos, Jane afirmou que pretende ampliar a participação de igrejas e empresas em ações contra a violência. “Eu quero envolver as igrejas, a gente precisa envolver o empresariado. Hoje eu busquei escolas, por exemplo, mas a gente precisa fazer uma lei ou uma conversa para alcançar igrejas.”

“Se você consegue alcançar as igrejas, e as pessoas têm muita fé, botam muita expectativa nas pessoas que estão lá e que são suas orientadoras espirituais, essas pessoas têm uma grande responsabilidade para falar de não violência, não aceitar a violência entre muros.”

Sobre o setor empresarial, citou segmentos com presença majoritária de homens. “Imagina a construção civil. Já tentei isso, ainda não alcancei, mas vou conseguir buscar a construção civil, onde tem muitos homens, é majoritariamente masculina, e falar para grupos de homens, que é lá que eu vou encontrar o agressor.”

“Então nós temos um campo ainda muito profícuo, muitas áreas para trabalhar e atuar no mandato nos próximos quatro anos.”

Questionada sobre qual área escolheria caso tivesse que estabelecer apenas uma prioridade, respondeu: “Ficaria com a proteção às mulheres”. “Para mim isso é mais do que só o mandato. Isso já faz parte da minha atuação, da minha vida. É um propósito de vida ajudar as mulheres, tirá-las da situação de violência.”

Ao completar a frase sobre o que faria Brasília melhorar, respondeu: “Mais compromisso, mais ação e menos falácia.”

Recados diretos
Na etapa final da entrevista, Jane respondeu a situações apresentadas pela entrevistadora com mensagens curtas.

Para uma mulher que está sendo agredida dentro de casa, disse: “Procure ajuda. Você não está sozinha.”

Ao homem que considera normal controlar o celular da companheira, afirmou: “Você não é proprietário. A sua função é acolher, apoiar e amar. Seja mais autoconfiante.”

A um agressor que acredita que a vítima nunca terá coragem de denunciá-lo, disse: “O que você faz com ela é pura covardia. Não é amor, não é proteção.”

Para uma menina que viu a mãe ser agredida, declarou: “Não permita que o que aconteceu com a sua mãe aconteça com você. Procure ajuda, denuncie. Você pode.”

Mulheres na política
Jane também incentivou mulheres a participarem da vida política. “Venha para a política. A política para a mulher ainda é um espaço curto. Nós somos agredidas politicamente porque as pessoas não nos querem nesse espaço. Mas a mulher precisa estar aqui.”

“Nada sobre mim, sem mim. Então, nada de política pública para a mulher sem a mulher fazendo. Venha. Nós precisamos criar esse ambiente mais acolhedor para que tenhamos mais mulheres na política.”

Questionada sobre violência política, a deputada afirmou que mulheres candidatas e ocupantes de cargos públicos enfrentam ataques específicos relacionados ao gênero. “Eu vou falar da minha situação e da situação de outras mulheres, o que é muito comum. Quando vem uma mulher na política, eles começam a agredir, atacar, tentar tirar a moral dessa mulher, o espaço dela.”

“Aí eu pergunto: por que eles não fazem isso com homens e insistem em fazer com as mulheres? É porque acreditam que a mulher é mais frágil e conseguem minar, solapar ou encurtar esse espaço das mulheres.”

Na avaliação da parlamentar, as respostas institucionais ainda deveriam ser mais firmes. “A violência política existe, é muito latente, mas os nossos tribunais, infelizmente, ainda são muito acanhados nas decisões. Teriam que ser decisões mais firmes para que realmente as pessoas recuassem e não intimidassem, não assustassem essas mulheres.”

“As situações são tão complexas, tão escancaradas, tão escandalosas, que muitas fazem é desistir. Elas desistem e ficam caladas porque não encontram espaço para ter uma retribuição à altura para quem praticou a violência política.”

Jane afirmou que mulheres vítimas desse tipo de ataque devem procurar os canais institucionais. “Mesmo que pratiquem a violência, denuncie. Vamos continuar denunciando a violência contra a mulher em todos os aspectos, inclusive política. A gente não deve aceitar.”

“Nós temos que continuar avançando, não tem mais retrocesso. Então a mulher vai caminhar sempre para a frente, por mais que esses homens misóginos, covardes, não queiram.”

Legado
Ao ser questionada sobre como gostaria de ser lembrada ao fim da vida pública — pelas leis aprovadas, pelos cargos ocupados ou pelas vidas alcançadas —, Jane escolheu a última opção. “Com certeza, pelas vidas que eu consegui transformar. Nunca é por merecimento ou para buscar holofote ou para ter números, dizer: ‘Aprovei infinidade de leis’. Não. Eu quero que sejam leis efetivas e que alcancem muitas pessoas. Deixar legado e ser um propósito.”

No encerramento, a deputada voltou a destacar a responsabilidade coletiva no enfrentamento à violência. “Tenho certeza que algumas mulheres nos ouviram e vão, de repente, buscar uma ajuda, se sentir mais confortáveis para denunciar.”

“Acho que nós deixamos uma pulguinha atrás da orelha das pessoas que nos ouviram: elas precisam participar. A rede de proteção às mulheres é formada especialmente pelo poder público, mas também por familiares, por quem está próximo à mulher.”

“Essa rede tem que funcionar. Senão, quando ela sofrer uma violência ou, infelizmente, quando ela morrer, não dá para a gente só chorar e dizer: ‘Não tenho nada com isso’. Tem. Nós temos responsabilidade.”

Jane também ressaltou que seu discurso é direcionado ao combate à violência, e não aos homens de forma geral. “Não temos nada contra os homens. É só com relação à violência mesmo. Existem muitos homens bons, existem homens honestos.”

Por fim, a parlamentar disse que a experiência dos Comitês de Proteção à Mulher do Distrito Federal despertou interesse em outros estados. “Nosso comitê foi copiado por Tocantins. Tocantins tem Comitê de Proteção à Mulher a exemplo aqui do nosso. Já fomos fazer orientação no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no Pará. Eles conheceram a nossa realidade por meio de alguns eventos e quiseram entender para copiar. Então é uma política pública que vai se espalhar pelo Brasil.”

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